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Alguns resultados do projeto 'Ciência, Tecnologia e Inovação para a Sustentabilidade':

 

Bolsas DSE

Bolsistas contemplados até o momento: Felipe Mammoli e Victo Silva. Abaixo alguns breves comentários sobre as suas experiências de intercâmbio.

 

1- Felipe Mammoli - janeiro a julho 2020 - Museum für Naturkunde (Museu de História Natural) de Berlin. Supervisão: Profa. Tahani Nadim.

 

Comentário de Felipe Mammoli sobre o trabalho em andamento:

"Em minha pesquisa de doutorado, sigo etnograficamente o desenvolvimento de um modelo computacional que representa a vegetação da floresta amazônica. O objetivo do modelo em questão é conseguir produzir previsões e cenários sobre como a vegetação da floresta amazônica vai reagir as mudanças do clima nas próximas décadas. O meu objetivo, porém, é compreender como as ciências ambientais, em especial a ecologia, incorporou práticas, técnicas e tecnologias digitais para produzir conhecimentos sobre a mudanças climáticas. Isso pois a modelagem é uma forma específica produzir conhecimento sobre a natureza e que tem consequências sobre o que pode ser pensado sobre ela. Os modelos interessados nas mudanças climáticas são ótimos lugares para observar como parte significativa de toda a discussão ambiental é intermediada hoje por grandes infraestruturas computacionais de coleta, processamento e armazenamento de dados digitais. E em grande medida, são essas infraestruturas que mediam a nossa experiência contemporânea de relação com a natureza. A modelagem ambiental talvez seja a área das ciências ambientais que mais incorporou técnicas computacionais de pesquisa em sua prática cotidiana, como o uso de algoritmos, integração de grandes bases de dados e uso de supercomputadores para rodar simulações.

Para o meu período de doutorado sanduíche, decidi conhecer outra parte das ciências ambientais interessadas pelas mudanças climáticas, uma parte que ainda não tem como pressuposto de seu trabalho essa relação tão próxima com as tecnologias digitais contemporâneas. Queria acompanhar como essa relação entre pesquisa sobre a natureza e pesquisa computacional é construída e assim expandir a discussão da minha tese sobre a digitalização da natureza. A partir dessa ideia, me aproximei do grupo de pesquisa em estudos sociais da ciência e história da ciência coordenado pela Prof. Tahani Nadim, chamado Data/Natures e que está interessado justamente nas práticas científicas contemporâneas de digitalização. Situado no Museu de História Natural de Berlim, o grupo acompanha as atividades de digitalização do vasto acervo do museu, que é composto por mais de 30 milhões de objetos entre espécimes, fósseis e minerais coletados desde antes da fundação da instituição em meados dos 1800.

            Atualmente o museu está digitalizando a coleção Hymenoptera, que é composta de cerca de 3 milhões de espécimes de abelhas, vespas e formigas. O processo de digitalização consiste em produzir diversas fotos de cada um desses objetos e tornar seus dados acessíveis para a comunidade científica externa, possibilitando que cientista de fora do museu tenham acesso ao seu acervo. O processo de digitalização é bastante complexo e envolve retirar cuidadosamente cada objeto de seu recipiente original, normalmente uma gaveta de madeira e tampo de vidro do século XIX, montar o objeto em um equipamento de fotografia, tirar as fotos de vários ângulos e níveis de zoom diferentes, recatalogar o objeto e transferi-lo para os novos arquivos de alumínio que garantem uma proteção muito maior ao objeto do que os arquivos antigos. Além do próprio espécime, os cartões de identificação que o acompanham também precisam ser digitalizados, pois são eles que contém informações contextuais importantes sobre o objeto, como seu nome científico, data e local de coleta, quem coletou e outras informações de relevância histórica. Depois de todo esse trabalho, todos os dados precisam ser inseridos em um banco de dados que garante que determinado objeto possui determinado código e pode ser encontrado em determinada seção da coleção.

 

Figura 1 - Equipamento de digitalização tridimensional. O objeto colocado ao centro da câmara é rotacionado e são tiradas cerca de 6 mil fotos em diferentes ângulos e com diferentes níveis de zoom. Todo o processo fotográfico tem duração de 6h para cada espécime.

 

Figura 2 - Software de visualização e composição das imagens. Na tela é possível ver uma foto do objeto em alta resolução. Todas a fotos serão posteriormente utilizadas para compor um modelo tridimensional de alta fidelidade do espécime.

 

Apesar de atividades muito diferentes, a modelagem e a digitalização de coleções compartilham essa característica de atualizar a forma de relação com a natureza. Uma forma guiada por dados e infraestruturas digitais, comunidades científicas internacionais e organizações intergovernamentais de escala global. Olhar para as duas experiências contribui em mostrar as complexidades materiais, sociais, científicas e políticas de transformar problemas ambientais em problema informacionais. Aproximar as duas experiências através de suas semelhanças e diferenças, ajuda a compreender como a narrativa de conhecer o mundo através de tecnologias digitais emerge em locais tão diversos e conecta, ao menos parcialmente, práticas científicas que poderiam parecer completamente alheias, como a modelagem de ecossistemas e a pesquisa em coleções de história natural."

 

2- Victo Silva – setembro/21 a fevereiro/22 – Copernicus Institute of Sustainable Development (Universiteit Utrecht). Supervisão: Prof. Koen Frenken

Em minha pesquisa de doutorado, orientada pela prof.ª Drª Maria Beatriz Bonacelli, investigo como o sistema tecnológico digital alterou processos na esfera da ciência e da inovação. Este sistema de tecnologias, quando encarado de forma dinâmica gera três novas trajetórias de desenvolvimento tecno-econômico. Primeiro, reforça a digitização, ao tornar mais acessível o uso de dados como input universal; fomenta uma nova trajetória de inovação baseada na algoritmização (inteligência artificial/aprendizado de máquina); e reforça um novo modelo organizacional: a plataformização.

            Embora meu interesse de pesquisa seja o amplo processo de transformação digital (social, cultural, do setor público), para a minha tese decidi focar apenas nas transformações digitais que ocorrem na esfera da ciência/inovação. A tese foi estruturada no formato de (3) artigos, que abordam uma das três trajetórias de desenvolvimento mencionadas acima (digitização; algoritmização; plataformização). O primeiro artigo conceitualiza o sistema tecnológico digital e foi publicado em 2020. O segundo e terceiro artigos, agora em peer-review, foram construídos ao longo de 2021 e refinados no Copernicus Institute. A tabela abaixo indica o que foi feito em cada artigo e como ele se relaciona com os temas da tese.

Artigo

Estágio

Contribuição do sanduíche

Relação com as trajetórias de transformação digital

O Sistema Tecnológico Digital: inteligência artificial

Publicado

-

Conceitualização

Framing the effects of machine learning on science

Em peer-review

Revisão e sugestões de aprimoramento

Inteligência artificial e ciência

The diffusion of digital platforms on the science realm a thirty-year perspective

Em peer-review

Revisão e sugestões de aprimoramento

Plataformas digitais e ciência

How academia works with/around platform data

Working paper

Desenvolvimento

Dados e ciência/plataformas digitais e ciência

Tabela 1 – Artigos da tese e contribuição do sanduíche na Universidade de Utrecht

Um quarto artigo, totalmente desenvolvido em Utrecht (How academia works with/around platform data), teve seu primeiro draft aprovado para apresentação na conferência EU-SPRI 2022. Sendo a transformação digital um tema de fronteira, foi especialmente importante contar com a revisão dos artigos por parte de meu supervisor na Universidade de Utrecht, o professor Koen Frenken. Koen é um dos pioneiros na investigação de plataformas digitais e de suas implicações para o trabalho, a geografia econômica, a inovação e a regulação. Estreitar o contato com ele e com o grupo de pesquisas do Copernicus Institute (em especial Iryna Susha, Jarno Hoekman e Wouter Boon) foi fundamental para aprimorar os trabalhos anteriores e iniciar a elaboração deste quarto artigo.

Figura 1 – Seminário apresentado para o TIK Oslo em 14 de Outubro de 2021

Muito embora o recrudescimento da pandemia tenha inviabilizado algumas atividades planejadas, foi possível estabelecer contato também com outros centros, como o TIK Oslo. Em outubro, apresentamos o seminário “Platform economy: what agenda for innovation studies?”, que consistiu em uma reflexão sobre como as plataformas digitais exigem novas perspectivas de investigação. Para junho/22 está programada uma apresentação para o Copernicus Institute de ainda uma outra abordagem de transformação digital: o mapeamento global da economia de plataformas baseado em dados da Orbis, trabalho realizado em cooperação com Tulio Chiarini (IPEA) e Leonardo Ribeiro (Cedeplar/UFMG). Portanto, o período sanduíche foi fundamental para aprimorar meus trabalhos previamente desenvolvidos, desenvolver novos papers e ampliar a rede de pesquisa internacional.