Publicado originalmente no Jornal da Unicamp online.
Primeira etapa de projeto financiado pela USAL e pela Fapesp ocorreu no interior de São Paulo
Os docentes da Universidad de Salamanca (USAL, Espanha) Marcos Francos Quijorna e Antonio Ceballos Barbancho visitaram o Instituto de Geociências (IG) da Unicamp no início de setembro para a primeira etapa prática de um projeto que está sendo desenvolvido no Laboratório de Geomorfologia e Análise Ambiental (Geomorfo), coordenado pelo professor emérito Archimedes Perez Filho, em parceria com a instituição espanhola. Financiado pela USAL e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o projeto “Pulsos climáticos e uso e ocupação da terra nas paisagens pedogeomorfológicas no Holoceno: uma análise comparativa entre Espanha e Brasil”, com duração de dois anos, tem como objetivo central entender como as atividades humanas e as variações climáticas ao longo dos últimos 11 mil anos moldaram o relevo no sudeste brasileiro e na região de Salamanca, na Península Ibérica.
O plano de trabalho inclui trabalhos de campo tanto no Brasil quanto na Península Ibérica. Em maio deste ano, os pesquisadores definiram passos iniciais da primeira etapa ao projeto, que consistiu em um trabalho de campo conjunto das equipes da Unicamp e de Salamanca no estado de São Paulo. A atividade foi estruturada a partir de um transecto que partiu do Pico do Jaraguá, passou pela Serra do Japi e adentrou a Bacia Sedimentar do Paraná até chegar à região de Presidente Prudente. O objetivo foi apresentar aos docentes da instituição espanhola a dinâmica dos compartimentos geomorfológicos locais e coletar amostras em uma pequena bacia hidrográfica sob uso de pastagens. “Curiosamente, as cuestas e as depressões que temos aqui (no interior de São Paulo) são semelhantes à área que vamos ver lá (na região de Salamanca)”, comenta Perez Filho, referindo-se ao campo que será feito em janeiro pela equipe do IG, em uma segunda etapa do projeto.
Durante o trajeto no interior de São Paulo, foram coletadas amostras de sedimentos que serão utilizadas para avaliar o impacto direto das atividades agropecuárias na dinâmica de erosão e deposição desses substratos. Para comparar processos de erosão, sedimentação e uso da terra no Brasil e na Espanha, os pesquisadores utilizarão técnicas geocronológicas avançadas desenvolvidas no laboratório do IG ao longo das últimas duas décadas. Entre elas, a datação por luminescência opticamente estimulada (LOE), que busca reconstituir os processos naturais da paisagem em escalas de tempo de centenas a milhares de anos, e a análise de chumbo 210, voltada para os impactos antrópicos mais recentes ocorridos nos últimos 100 a 150 anos. Esse cruzamento de dados permitirá contrastar com precisão o tempo da natureza e o tempo da intervenção humana.
“Um ponto forte do projeto é a reconstituição da dinâmica em um período natural, com baixa interferência humana, e depois um período mais recente, com a interferência humana, que transforma a paisagem por meio da agricultura e das cidades, por exemplo. É isso que nos preocupamos em analisar”, destaca Estêvão Botura Stefanuto, pós-doc supervisionado por Perez Filho. Enquanto no oeste paulista a interferência humana e a conversão da mata nativa em áreas agrícolas têm menos de um século, na região de Salamanca a ação antrópica consolidada remonta a mais de 3.500 anos.
Próximas etapas
Em janeiro, a equipe da Unicamp viajará à Espanha para replicar, juntamente com os pesquisadores de Salamanca, os métodos de análise aplicados no campo realizado no Brasil. “Trabalharemos de maneira conjunta, como no campo que tivemos no Brasil. Na Espanha, a escala espacial é diferente: o que percorremos em 800 ou 900 quilômetros no transecto paulista, encontramos em cerca de 250 quilômetros por lá”, explica o docente de Salamanca Marcos Francos Quijorna.
O pesquisador detalha que a seleção abrange desde zonas de montanha com baixa intervenção humana até áreas históricas de cultivo. “Visitaremos desde áreas elevadas de granito com pastagem natural até as margens do Rio Duero, na região de Toro. O uso da terra em vinhedos tradicionais, alguns estabelecidos há décadas e outros com vestígios de uso de mais de 3 mil anos, nos dará pistas valiosas sobre como a agradação de materiais e a intervenção humana moldaram a paisagem ao longo do tempo”, completa. A escolha de áreas comparáveis também tem um objetivo prático a longo prazo: criar metodologias padronizadas para submeter propostas conjuntas a editais internacionais de financiamento científico.
O plano de trabalho abrange ainda outras três missões de intercâmbio entre as equipes, que incluem trabalhos de campo – uma em 2026 e outras duas ao longo de 2027.Além dos aspectos técnicos, os pesquisadores destacam a forte sintonia pessoal e a facilidade de comunicação construídas durante os dias de campo. Para o docente de Salamanca Antonio Ceballos Barbancho, a boa convivência é um pilar indispensável para o sucesso da pesquisa. “Pode parecer que o que importa são apenas as relações acadêmicas e técnicas, mas a qualidade humana e o entendimento pessoal são fundamentais para que a ciência funcione. Fomos muito bem recebidos na Unicamp pela equipe do professor Archimedes. Essa relação de confiança e flexibilidade facilita todo o trabalho e afasta qualquer reticência”, afirma Barbancho.
Além do avanço científico, o projeto busca reativar e fortalecer um convênio institucional estabelecido entre a Unicamp e a Universidad de Salamanca, que prevê o intercâmbio de docentes e a mobilidade de estudantes de pós-graduação de ambas as instituições até 2028.
Autoria: Eliane Fonseca Daré
Edição de Imagem: Paulo Cavalheri
Fotografia: Acervo Archimedes Perez
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Equipe de pesquisadores da Unicamp e da Universidade de Salamanca
O plano de trabalho abrange ainda outras três missões de intercâmbio entre as equipes uma em 2026 e outras duas ao longo de 2027




