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Jornal da Unicamp - Futuro em dívida

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Ju Kauê

Publicado originalmente no Jornal da Unicamp.

Livro Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia, de Kauê Lopes dos Santos, mostra endividamento crônico como resultado direto de uma sociedade financeirizadaarecer no banner de destaque

No início dos anos 2010, durante pesquisas para o seu mestrado em Habitat na Universidade de São Paulo (USP), Kauê Lopes dos Santos entrou na casa de uma família, em um bairro periférico de São Paulo, para realizar mais uma de suas entrevistas. Na sala da residência, a televisão de 43 polegadas chamava a atenção. “Tudo aqui nesta casa foi comprado parcelado”, comentou a entrevistada. Desde então, Santos, que atualmente é professor do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, dedica parte de sua agenda de pesquisa à compreensão de como a capilarização do crédito alterou as dinâmicas de consumo da população de baixa renda. Parte dos resultados desse trabalho está no livro Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia, lançado pela editora Fósforo.

Para o docente, os novos padrões de consumo viabilizados pelo acesso ao crédito formal alteraram a face da pobreza nos últimos anos e propiciaram uma “inclusão subordinada”, pois as modalidades de crédito ofertadas à população de baixa renda são significativamente desfavoráveis, com taxas de juros exorbitantes. E, ao mesmo tempo em que a oferta de financiamentos cresceu em ritmo acelerado, houve poucas transformações no acesso aos direitos universais, que permanece precário.

Diante do recorde de inadimplência no país, que atinge 50,5% da população adulta, segundo dados divulgados este mês pelo Serasa, o professor conclui que “a forma como a sociedade de consumo está organizada no Brasil leva ao endividamento crônico”. Recentemente, o governo federal lançou o programa Novo Desenrola Brasil, justamente buscando reduzir o nível de endividamento entre famílias, estudantes, produtores rurais e micro e pequenas empresas.

Em entrevista ao Jornal da Unicamp, Santos fala sobre as ideias centrais do livro, no qual elabora o conceito de “alienação do futuro” – a ideia de que “muitos projetos ficam em suspenso porque a organização da vida e do orçamento familiar está subordinada ao pagamento de parcelas.”

Jornal da Unicamp – O seu livro está sendo lançado em meio a um recorde de endividamento no Brasil. Quais são as origens desse problema?

Kauê Santos – A aposta do Estado brasileiro no âmbito do consumo se estruturou no tripé formado pela obsolescência programada, pela publicidade e pelo crédito. E isso faz com que nós, enquanto sociedade e também como diferentes classes sociais, acessemos diferentes produtos de crédito com diferentes destinações. No livro, eu trato o endividamento como uma condição crônica, justamente porque ele não se encerra. O crédito formal oferecido à população de baixa renda, especificamente, ganha tônus a partir do início dos anos 2000. Foi quando as instituições do sistema financeiro nacional criaram produtos de crédito específicos para esse segmento da população, que começou, então, a consumir mercadorias que até então só consumiria se juntasse o dinheiro para comprar. Agora ela compra sem necessariamente ter o dinheiro.

Jornal da Unicamp – Você aponta que esses novos padrões de consumo não superaram a pobreza urbana, mas alteraram a sua aparência. Qual é a cara da pobreza agora?

Kauê Santos – O crédito entra com uma nova variável para a interpretação da pobreza urbana. O que temos com essa capilarização do crédito é uma nova condição de consumo. O que vai tornando essa pobreza “nova” é o fato de o contraste se aprofundar. Ainda há espaços periféricos com menos investimento público em saúde, educação e energia, marcados por habitações precárias, frequentemente autoconstruídas e que são, ao mesmo tempo, povoadas por produtos considerados “modernos”. Mas, para mim, o moderno é tudo: é a televisão e é também a falta de esgoto. É uma modernidade típica do Sul Global, fundamentalmente desigual.

O que observamos é uma explicitação desses contrastes nos espaços periféricos, em que fica muito nítida a precariedade de acesso a direitos universais, ao mesmo tempo em que há uma presença cada vez mais marcada de produtos da indústria. Isso traz também a reflexão que o professor Milton Santos coloca no livro Por uma outra globalização, isto é, a questão “consumidor versus cidadão”. A gente vai criando a sociedade de consumo e colocando o consumo em um lugar cada vez mais importante no cotidiano.

Ao mesmo tempo, um senso de cidadania ligado à coletividade pode se perder. Por exemplo: a escola está ruim? Então eu coloco meu filho em uma escola privada. O transporte está ruim? Então eu compro um carro parcelado. Não tem parque ou praça? Então ficamos cada vez mais dentro de casa com videogame e televisão. Ao mesmo tempo, essa nova pobreza acessa produtos de crédito e bens de tecnologias avançadas, mas em condições muito precárias, porque aí vem a perversidade do sistema financeiro: as taxas de juros são elevadíssimas, muito além do que se cobra em outros países. É justamente o trabalhador precarizado – com os piores empregos, os piores salários e morando nos bairros com menos infraestrutura – quem vai pagar os juros mais caros. Essa nova pobreza tem um caráter altamente financeirizado.

Jornal da Unicamp – A capilarização do crédito gerou também uma “inclusão subordinada”, como você reflete. O que isso significa?

Kauê Santos – Na literatura da economia, o termo “inclusão financeira” geralmente é positivado. Nesse sentido, sujeitos que não estavam bancarizados ou acessando produtos de crédito formal agora estão. Isso está baseado em algumas experiências bem-sucedidas de bancos populares, no Sudeste Asiático e na Índia. Acontece que o termo é maior do que essas experiências. Tudo que está ligado ao acesso ao crédito por parte da população de baixa renda tende a ser tratado pela literatura como inclusão financeira. O que eu tento problematizar é que, no caso brasileiro, não se trata de uma inclusão financeira pura. Há uma dimensão hierárquica que promove assimetrias.

Eu defendo a ideia de que temos, isso sim, uma “inclusão subordinada”: existe acesso aos produtos de crédito, mas as condições não são as mais justas para o trabalhador. Existem trabalhadores que vão acessar esse crédito em condições muito desfavoráveis. As taxas de juros, que são exorbitantes no Brasil, são fundamentais para desenhar os cenários de inadimplência e insolvência, mas elas, sozinhas, não definem a condição de endividamento. O endividamento é o produto de uma determinada lógica. Todos que parcelam estão endividados. Esse mecanismo está perene na nossa sociedade. Temos uma estruturação social do consumo centrada na financeirização, que não é uma lógica de inclusão, mas de extração de recursos. As pessoas trabalham, trabalham e trabalham, já pagaram o preço do produto mais de uma vez e seguem pagando parcelas. Quando terminam de pagar, o produto talvez já esteja obsoleto e tenham de comprar outro. É uma situação crônica e estrutural.

Jornal da Unicamp – Como você avalia a leniência na concessão de crédito?

Kauê Santos – O que a gente vem observando é que é um sistema pouco questionado. Até mesmo quando falamos que “as taxas de juros estão altas”, é sem responsabilizar as instituições de crédito. E quando há responsabilização, é sobre os endividados: “Não sabem gastar”, “Não têm consciência do quanto ganham”, “São consumistas”… enfim, cai-se em uma chave de interpretação moralista e muito problemática. Claro que precisamos de educação financeira para entender como gerir os recursos no cotidiano, mas é preciso entender também como esse sistema financeiro nacional se estrutura. Entender de forma crítica como são cobradas taxas de juros exorbitantes, e que a forma como a sociedade de consumo está organizada no Brasil leva ao endividamento crônico, sobretudo porque ela está fundamentada na articulação entre obsolescência programada, publicidade e crédito. São peças de uma engrenagem que se movimentam o tempo todo, e nós naturalizamos isso.

Nos anos 1990, quem vai chegando e construindo aos poucos essa lógica de parcelamento são as redes varejistas, com os carnês. Elas se estabelecem em uma lógica quase de horizontalidade, de relação de proximidade com o cliente, e vão ganhando força. Nos anos 2000, associam-se ao sistema financeiro, que olha para esse mecanismo das redes e percebe: os mais pobres pagam. E pagam porque entendem isso como um valor. A população de baixa renda que vive nas periferias brasileiras já não tem acesso a muitas coisas e, quando ela consegue comprar e possuir determinado objeto, isso é um signo de dignidade.

Jornal da Unicamp – O que é a alienação do futuro, expressão que você desenvolve?

Kauê Santos – A ideia de alienação do futuro é essa percepção – que os próprios entrevistados relatam – de que muitos projetos ficam em suspenso porque a organização da vida e do orçamento familiar está subordinada ao pagamento de parcelas. Se você entesoura e compra, acabou: juntou o dinheiro, comprou o produto e pronto. Hoje, com o acesso ao crédito, há uma facilidade de consumo que se renova com velocidade cada vez maior. Além de perder a percepção do total de quanto estamos pagando de verdade pelo produto, outros projetos ficam paralisados. As possibilidades de mobilidade social também ficam neutralizadas, porque a renda fica muito tempo capturada pelo sistema financeiro. Uma renda que poderia ser utilizada para outros projetos pessoais e familiares é extraída pelos bancos. É um futuro comprometido em função das regras do sistema financeiro.

Jornal da Unicamp – Você aponta para a importância da dimensão racial para a compreensão da pobreza, trazendo reflexões do sociólogo Carlos Hasenbalg sobre o ciclo acumulativo de desvantagens, vivenciado pela população negra na periferia. Como o endividamento se soma a esse ciclo?

Kauê Santos – Em sua maioria, meus entrevistados se autodeclaram negros. Os três bairros que analisei possuem acima de 50% de população negra. Vale dizer: São Paulo é a cidade com a maior população negra das Américas em termos absolutos. Mas a gente não vê esse debate nas humanidades e nas ciências sociais da forma como deveria. Ao meu ver, tentar entender o território brasileiro e a sociedade brasileira e não dimensionar a questão racial significa não ter entendido nada sobre o país. No Brasil, a relação entre classe e raça não é só uma questão de intersecção, de como partes se relacionam; é praticamente uma relação de subordinação, de modo que a variável da raça informa a variável da classe.

O que eu fiz nessa pesquisa foi incorporar o debate que Hasenbalg traz. Ele fala desse ciclo cumulativo de desvantagens do negro no Brasil, trazendo a ideia de que, mesmo pertencendo a uma mesma classe social, o negro, em função do racismo estrutural e institucional, sai em desvantagem. Esse ciclo se manifesta por meio da violência policial, do desemprego e de um pior acesso às oportunidades. O que eu tento fazer é contribuir para esse debate a partir dessa dimensão do crédito. Recentemente, saíram dados oficiais do Banco Central: as mulheres negras, segundo o CadÚnico [Cadastro Único para programas sociais], são as que pagam as taxas de juros mais altas e acessam os piores produtos de crédito, com as taxas mais abusivas. Os dados da Rais [Relação Anual de Informações Sociais] mostram os homens negros logo na sequência. Eu tinha isso de forma qualitativa pelas minhas entrevistas, e agora está comprovado com dados quantitativos.

Jornal da Unicamp – Que papel o Estado deveria ter na questão do endividamento?

Kauê Santos – O Estado precisa criar mecanismos para olhar para essa questão, e a gente precisa pensar enquanto cidadão se é esse mesmo o nosso projeto de sociedade. O que os governos podem fazer é atuar na educação financeira. Outra questão urgente são as taxas de juros, que sem a menor dúvida precisam ser reduzidas, justamente para mitigar a inadimplência e a insolvência. A gente precisa pensar em políticas de valorização do salário, porque muitas vezes as pessoas acabam entrando em tantos contratos de crédito que acabam alienando não só o futuro, mas também o cotidiano presente. O que acontece muitas vezes é que trabalhadores começam a assumir novas jornadas de trabalho em horários que seriam de descanso; fazem corrida por aplicativo, fazem bolo por encomenda, vendem trufa na universidade. Isso significa uma carga de trabalho enorme.

Há também questões ligadas à obsolescência programada: o Estado poderia ampliar os prazos de durabilidade, fazendo com que empresas se responsabilizem por aumentar a garantia dos seus produtos, para que esse ciclo se renove com menor velocidade. Eu acho pouco provável que isso aconteça no atual estado das coisas, embora o planeta esteja chegando a um limite, mas é preciso pensar também na lógica de produção e descarte: o lixo eletrônico, por exemplo, vai ser, ou melhor, já é um problema enorme. Enfim, precisamos pensar em soluções de curto, médio e longo prazo. E que não responsabilizem apenas os trabalhadores, mas também as grandes corporações que se beneficiam da organização da sociedade de consumo brasileira na forma como ela se encontra atualmente.

Autoria: Liana Coll

Edição de Imagem: Alex Calixto, Luis Paulo Silva, Paulo Cavalheri

Fotografia Pablo Saborido/Editora Fósforo Ira Romão, Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil Divulgação

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  • Parte da pesquisa empreendida por Santos foi realizada na Brasilândia, bairro localizado na periferia de São Paulo
    Parte da pesquisa empreendida por Santos foi realizada na Brasilândia, bairro localizado na periferia de São Paulo
  • Kauê Lopes dos Santos apresenta no livro o conceito de “alienação do futuro”
    Kauê Lopes dos Santos apresenta no livro o conceito de “alienação do futuro”

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