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Jornal da Unicamp - Livro expõe relação ambígua entre ditadura e ciência

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  • Jornal da Unicamp - Livro expõe relação ambígua entre ditadura e ciência
JU Silvia

Publicado originalmente no Jornal da Unicamp. 

Ao mesmo tempo em que cassava professores, censurava manifestações políticas e culturais e vigiava universidades, a ditadura civil-militar brasileira (1964­−1985) inaugurava laboratórios, reformava o ensino superior e financiava pesquisas estratégicas para o desenvolvimento econômico e a soberania nacional. A ciência do país viveu, à época, seu maior paradoxo, sendo silenciada como pensamento crítico e exaltada como motor do desenvolvimento. É nesse terreno ambíguo que se insere o livro Ciência, desenvolvimento e democracia no Brasil: trajetórias, instituições e agendas de pesquisa, 1945−2000, que será lançado neste mês pela Editora Fiocruz. 

“Um ponto forte no livro é justamente a contradição vivida pela ciência brasileira durante a ditadura militar. Nós examinamos as circunstâncias do período, durante o qual cientistas brasileiros sofreram as injunções e restrições decorrentes do regime, tendo seus direitos políticos cassados, ao mesmo tempo em que a ciência teve uma significativa expansão. A Unicamp é um exemplo emblemático desse paradoxo, ao se consolidar como universidade de pesquisa exatamente naquele contexto histórico”, destaca o físico e historiador Olival Freire Junior, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e coordenador da iniciativa que deu origem à obra. 

O livro é um dos principais resultados do projeto História da Ciência e da Tecnologia no Brasil (1945−2000), submetido ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em 2021 e desenvolvido ao longo de três anos por uma equipe de aproximadamente 30 pesquisadores de diversas universidades. Entre os autores e coordenadores, há a participação direta de pesquisadores vinculados à Unicamp, como as geólogas Silvia Figueirôa e Maria Margaret Lopes e o jornalista Guilherme Gorgulho, que colaborou com o capítulo sobre o protagonismo dos cientistas da Unicamp na gênese do tecnopolo de Campinas. 

Pessoa de cabelos brancos e óculos, vestindo terno cinza e gravata vermelha, discursa em um pódio transparente com microfone durante um evento, com outra pessoa visível ao fundo.Presidente do CNPq, Olival Freire Junior coordenou o projeto

“Fui professor visitante do Instituto de Estudos Avançados [IdEA] da Unicamp, que, na época [2020], promoveu um curso sobre história da ciência no Brasil no século 20. Num certo sentido, aquele curso ajudou muito a organizar minhas ideias e a formar, digamos assim, a convicção de que a história da ciência no Brasil, particularmente na segunda metade do século 20, precisava ser abordada com mais consistência”, comentou Freire Junior sobre a experiência como convidado do Programa “Cesar Lattes”.

O projeto contou ainda com a coordenação do historiador Antonio Augusto Videira, docente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). “O trabalho coletivo foi decisivo para enfrentar a lacuna existente na história recente da ciência e da tecnologia no Brasil, que ainda é insuficientemente explorada. A dinâmica do projeto incluiu seminários virtuais e três encontros presenciais, além de um evento de encerramento, em 2025, no Rio de Janeiro”, conta Videira.

Para o professor da Uerj, revisitar esse período é fundamental porque muitos dilemas atuais ainda são efeitos não absorvidos do golpe de 1964. “Há consequências diretas daquele momento na nossa vida de hoje. A ditadura é um evento que não foi completamente elaborado pela sociedade brasileira”, afirma. Segundo o pesquisador, o livro permite retomar questões estruturais, como desenvolvimento, progresso e organização social, que ganharam novas dimensões naquele contexto e seguem abertas ao debate.

A obra percorre a trajetória da ciência na segunda metade do século 20, mostrando como instituições de fomento e pesquisa ganharam centralidade sob regimes democráticos e autoritários, enquanto a política científica avançava, muitas vezes, entre rupturas e continuidades. Um pressuposto central, que aparece já na introdução do livro, orienta a leitura: o apoio à ciência no Brasil é marcado por descontinuidades, alternando contextos favoráveis e adversos, nem sempre “explicáveis” apenas por quem está no poder. Ainda assim, a combinação, em um mesmo período, de autoritarismo e apoio público à ciência e tecnologia pede explicação, e a coletânea oferece pistas.

Doutora em história social e docente do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, Figueirôa afirma que a valorização da ciência depende do olhar político do Estado. Esse padrão se repete em diferentes épocas e países, observa, inclusive onde a iniciativa privada é robusta. “Mesmo nos Estados Unidos, onde há investimento da iniciativa privada e centros de pesquisa e desenvolvimento muito valorizados, o investimento do governo é ainda fundamental.”

A visão é compartilhada por Lopes, também doutora em história social e docente do IG. Para ela, o olhar do governo para a ciência durante a ditadura conferiu, sim, centralidade e legitimidade ao campo científico, ainda que de forma profundamente contraditória. Enquanto professores, estudantes e departamentos inteiros foram atingidos pela repressão, outras instituições se afirmaram como polos de ciência e tecnologia, impulsionando a criação de institutos, novos cursos e universidades.

“Esse movimento contribuiu para o fortalecimento do sistema nacional de ciência e tecnologia, embora nem todas as áreas ou atores estivessem diretamente alinhados ao regime. Houve repressões mais localizadas, como em departamentos da Bahia, conforme registrado no livro, ao mesmo tempo em que avançaram projetos em áreas como a arqueologia, evidenciando as assimetrias e contradições que marcaram o período”, ressalta Lopes.

No Brasil, o apoio governamental foi historicamente importante, mas oscilou ao longo do século 20. Nos primeiros anos da ditadura, os aportes em ciência foram baixos; ainda assim, surgiram instituições importantes, como a Financiadora de Estudos e Pesquisas (Finep). Nos anos 1970, sob o ideário nacional-desenvolvimentista do “Brasil Grande”, a aposta em ciência e tecnologia se tornou explícita, com ênfase em energia nuclear, petróleo e na modernização da agricultura. Tudo isso não relativiza, de acordo com os autores, as violências cravadas pela expulsão de lideranças maduras, rupturas institucionais e a aniquilação do potencial humano, que deixaram marcas, algumas invisíveis, mas todas indeléveis.

Além do livro e de publicações derivadas, como um número especial da Revista Brasileira de História da Ciência, o projeto atuou em um desafio estruturante: a preservação de acervos relevantes para a história da ciência. Freire Junior, que atualmente é presidente do CNPq, relata que recursos do projeto ajudaram a organizar e a disponibilizar, em formato digital, com catálogo e seleção de documentos, o acervo do físico José Leite Lopes (1918–2006), hoje depositado no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas (CPDOC/FGV). 

Outra frente apoiou a digitalização e preservação do acervo do almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva (1889–1976), figura-chave na criação do CNPq e cujo arquivo está sob os cuidados da Universidade de São Paulo (USP). Para o coordenador, fortalecer centros de memória, inclusive no próprio CNPq, é parte do que permite “pensar com mais consistência” os impasses atuais da política científica no Brasil.

Autoria: Danilo Horta e Suzana Amyuni | Especial para o Jornal da Unicamp*
Edição de Imagem: Alex Calixto, Luis Paulo Silva e Paulo Cavalheri
Fotografia: Antoninho Perri e Marcelo Godim

* Reportagem produzida por estudantes do curso de especialização em Jornalismo Científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp, sob a supervisão do jornalista Guilherme Gorgulho

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