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Jornal da Unicamp - A revolução de Milton Santos

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Milton Santos

Publicado originalmente no Jornal da Unicamp

Geógrafo, que faria cem anos em 2026, mudou por completo o pensamento sobre o território e a sociedade


Poucas pessoas foram capazes de revolucionar um campo de pesquisas, atravessando as fronteiras entre países e disciplinas. Milton Santos é uma delas. Advogado de formação, foi na geografia que ele encontrou o território para uma das interpretações mais emblemáticas do pensamento contemporâneo. Mas suas reflexões, voltadas às desigualdades dentro de um espaço em crescente transformação, inspiraram análises em áreas tão diversas quanto economia e arquitetura, fazendo dele o único brasileiro a receber, em 1994, o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, maior honraria da área.

Homem negro e descendente de escravizados, Milton Santos, que foi também jornalista, escritor e professor universitário, nasceu há cem anos, em maio de 1926, e morreu em junho de 2001. Suas ideias, no entanto, permanecem vivas, influenciando trajetórias acadêmicas e ativismos: na década de 1970, o intelectual contribuiu para o movimento de renovação da geografia brasileira, construindo uma teoria que rompia com a tradição descritiva e quantitativa da época em favor de análises mais críticas sobre o mundo.

No centro dessa teoria estava a ideia de que o espaço não é apenas um palco para a ação humana, mas um condicionante da sociedade. Sendo assim, a disciplina deveria focar nas relações estabelecidas no interior de um determinado território, enquanto o espaço precisaria ser estudado em sua totalidade complexa. “No Brasil, ele foi o principal teórico a dizer que a geografia tem o papel de construir uma teoria interpretativa do espaço modificado pela sociedade para a compreensão da transformação do mundo”, afirma a geógrafa Adriana Bernardes, docente do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp.

A professora Adriana Bernardes: Milton Santos antecipou a preocupação com o controle da informação nas mãos de poucas empresas e atores
Bernardes foi orientada por Milton Santos durante sua pós-graduação na Universidade de São Paulo (USP), entre 1994 e o falecimento do professor, em 2001. Nesse período, o intelectual publicou, entre outros títulos, o livro A natureza do espaço (1996), no qual apresentou sua teoria geral do espaço humano. Na obra, o autor definiu o espaço como um conjunto indissociável de sistemas de objetos e ações, o que significa dizer que o mundo material é inseparável das dinâmicas sociais, políticas, econômicas e técnicas.

Um dos principais argumentos apresentados no livro é o de que as técnicas, tidas como um conjunto de meios instrumentais e sociais, são elementos constitucionais e transformadores do território. Por isso, tanto inovações industriais quanto o conjunto de normas, leis e conhecimentos seriam um meio para a ação humana no espaço. Santos pautava-se, principalmente, pela compreensão do chamado meio técnico-científico e informacional. Em suas obras, anteviu muitos dos problemas observados no século 21.

“Ele antecipou, por exemplo, a centralização de capital no âmbito das empresas de informação, ou seja, a informação controlada por poucos atores. E também antecipou o tema da desinformação”, afirma Bernardes, que em suas pesquisas interpreta a urbanização brasileira por meio da dimensão informacional e do papel da metrópole de São Paulo no comando dessa informação. “Para Milton, a forma como a informação é produzida, como é controlada e como circula cria um paradoxo em que há uma produção incessante de informação, mas a maioria das pessoas é impedida de se informar.”

O geógrafo aprofundou esse incômodo em um dos seus últimos livros, Por uma outra globalização (2000). Na obra, o autor critica o papel da ideologia na produção, disseminação, reprodução e manutenção da globalização, refletindo sobre as três dimensões do mundo contemporâneo: fábula, perversidade e possibilidade. De acordo com ele, o discurso sobre globalização cria uma série de fantasias utópicas sobre aldeia global e encurtamento de distâncias que escondem a realidade perversa do desemprego, da pobreza, das doenças e do “globalitarismo”, promotor de um pensamento único.

O professor Márcio Cataia: “A sociedade promove modificações, alterações e transformações no território, e isso provoca uma metamorfose que não volta mais e condiciona as ações sociais”
Ainda assim, Santos era otimista quanto às possibilidades de uma globalização humanizada. A “mistura” de povos, culturas, gostos e filosofias de todos os continentes, a produção de uma população aglomerada em áreas cada vez menores, dinamizando esse amálgama de pessoas e filosofias, e a emergência de uma cultura popular que se apropria desses meios técnicos resultariam em uma “verdadeira revanche” contra o poder estabelecido.

“Essa ideia da revanche é muito interessante, porque estamos vivendo isso hoje. A sociedade promove modificações, alterações e transformações no território, e isso provoca uma metamorfose que depois não volta mais e que condiciona as ações sociais”, afirma o geógrafo e professor do IG Márcio Cataia. “A observação miltoniana acerca dessa nova sociabilidade sugere que os sujeitos com escasso acesso aos recursos hegemônicos são os que possuem maior autonomia intelectual para criar outras formas de existência e organização”, acrescenta o especialista em geopolítica e economia política do território.

De fato, Milton Santos acreditava que as periferias — onde predomina o chamado circuito inferior da economia urbana — seriam as responsáveis pela transformação da sociedade devido à sua capacidade de resistência diante das adversidades. Mas tal percepção precede os anos 1990 e resultou de mais de meio século de reflexões sobre o território e a técnica, a globalização e o capitalismo, a urbanização e o Terceiro Mundo, espalhados em mais de 40 livros e centenas de artigos publicados em vários idiomas.

Os dois exílios

Natural de Brotas de Macaúbas, na região da Chapada Diamantina, na Bahia, Milton Santos teve uma infância marcada pela influência intelectual de seus pais, Adalgisa e Francisco, que eram professores primários e ensinaram francês e álgebra ao filho. Por parte de pai, Santos descendia de lavradores, mas a família de sua mãe pertencia a uma pequena burguesia negra que circulava por alguns espaços da sociedade, o que lhe proporcionou uma educação voltada a ser um “homem da corte”.

Aos dez anos, o menino Milton ingressou no Instituto Baiano de Ensino (IBE), colégio interno de Salvador onde passou a década seguinte. Classificado por ele como seu “primeiro exílio”, o período o afastou da família, mas tornou menos penosa a futura experiência fora do país. “Acho que isso foi muito importante, me fez alguém menos prisioneiro da família, mas me deu a dimensão do isolamento, da solidão, da necessidade de organizar o presente e um pouquinho, pelo menos, o futuro”, afirmou no livro Território e sociedade: entrevista com Milton Santos, de Odette Seabra, Mônica de Carvalho e José Corrêa Leite (2000).

Foi no IBE que Santos despertou para a geografia, ao entrar em contato com as ideias do médico e geógrafo brasileiro Josué de Castro (1908-1973), em uma disciplina do antigo ginásio. Nos anos seguintes à sua formação em direito, que nunca exerceu, o intelectual se tornou catedrático do Colégio Municipal de Ilhéus, se filiou à Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), passou a escrever para o jornal A Tarde e criou o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais da Universidade da Bahia.

As relações estabelecidas nesses meios lhe renderam diversas oportunidades. Em 1957, foi convidado pelo geógrafo Jean Tricart (1920–2003) a realizar seu doutorado em Estrasburgo, na França. Três anos depois, em 1960, teve a oportunidade de acompanhar como jornalista o então candidato à presidência Jânio Quadros em uma visita a Cuba. Após a eleição de Quadros, Santos tornou-se subchefe do Gabinete Civil da Presidência da República na Bahia e, mais tarde, responsável pela Comissão de Planejamento Econômico do governo baiano.

Com o golpe de 1964, o geógrafo ficou três meses preso em um quartel de Salvador, sendo encaminhado à prisão domiciliar após adoecer. No final daquele ano, teve início o seu segundo exílio, quando se afastou do Brasil por 13 anos, passando por universidades da França, Estados Unidos, Canadá, Tanzânia, Venezuela e Peru. Em 1977, o intelectual se instalaria na Nigéria para ajudar a criar uma universidade, mas, com a iminente chegada de seu segundo filho, decidiu voltar ao Brasil para que a criança nascesse baiana.

Homem de pele clara, calvo e com barba grisalha, usando óculos pretos e camisa polo preta. Ele está sentado em uma cadeira de escritório, gesticulando com as mãos durante uma conversa. O fundo é uma parede branca simples.
Para o professor Ricardo Castillo, a generosidade de Milton Santos é uma qualidade difícil de ser encontrada em outras pessoas
 

Formação do espaço

Foi no exílio que Milton Santos percebeu a necessidade de criar uma nova teoria para explicar a realidade dos países subdesenvolvidos, pois as fontes europeias não davam conta dessa tarefa. “Na Tanzânia, eu via o capitalismo entrando lentamente. Foi muito importante para a elaboração teórica do território descobrir que um país, com sua história e sua organização geográfica, pode ser ou não um obstáculo. Talvez daí tenha vindo essa ideia, que desenvolvi depois, da formação socioespacial — sem o espaço não dá para entender a produção do capitalismo”, afirmou em Território e sociedade.

Em 1975, ele publicou, em francês, O espaço dividido, produzido enquanto estava nos Estados Unidos e no Canadá. O livro, traduzido para o português em 1979, foi seminal para os estudos sobre a urbanização no Terceiro Mundo e apresentou sua interpretação sobre as causas do subdesenvolvimento no período pós-Segunda Guerra Mundial. Foi nesta obra que Santos apresentou a sua teoria sobre os dois circuitos da economia urbana, essencial para explicar as desigualdades econômicas nas metrópoles.

Segundo a teoria, dois grandes circuitos — o superior e o inferior — coexistem na cidade e são interdependentes. O primeiro, ligado ao grande capital, à tecnologia e às redes globais, é formado por instituições como bancos, corporações, indústrias e tecnologias da informação; já o segundo surge em resposta à necessidade de sobrevivência, sendo composto por atividades de pequena escala, com pouco capital e muito trabalho. “Há também um circuito superior marginal da economia urbana que se estabeleceu nos países periféricos. Ele tenta copiar o superior, mas não tem capital o suficiente para estar no mesmo nível das empresas do circuito superior”, explica o docente do IG Ricardo Castillo.

No IG, Castillo pesquisa temas como rede geográfica, circuito espacial produtivo e competitividade regional, tomando como referência conceitos como espaço geográfico e região produtiva. Este último, elaborado por Santos na década de 1980, surgiu com o intuito de se contrapor à ideia clássica de região, decorrente de uma lenta combinação entre uma fração da sociedade e uma fração do espaço. Isso porque, com o tempo, as regiões foram se interconectando e trocando mercadorias e culturas, deixando de serem explicadas por sua relação exclusiva com o local para serem compreendidas a partir do contato com outras escalas geográficas.

“Esse é o conceito de territorialidade relativa. Mas, com a Revolução Industrial, começou a haver um processo de especialização regional produtiva, em que a tecnologia vai avançando e a região se especializa na produção e distribuição de uma dada mercadoria”, explica Castillo. “Ela é produtiva em relação a um setor, como tomate, café ou cana-de-açúcar. Então, fazer a cartografia dessas regiões é fundamental para o planejamento regional e urbano hoje, para entender se, de fato, faz sentido que uma alface consumida no norte de Mato Grosso venha de São Paulo”, detalha.

Castillo conheceu Santos em 1984, numa aula inaugural da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Depois de retornar ao Brasil, o intelectual lecionou alguns anos como convidado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), até ser admitido, em 1983, como professor titular na instituição paulista. Ali, ao lado da geógrafa Maria Adélia de Souza, orientadora de Castillo e de Cataia, Santos participou da criação do Laboratório de Geografia Política e Planejamento Territorial e Ambiental (Laboplan), em atividade há mais de 30 anos.

No Laboplan, Santos orientou estudantes e aprofundou suas pesquisas sobre urbanização nos países subdesenvolvidos. Ainda nos anos 1970, ele havia publicado duas obras fundamentais para o pensamento do trabalho geográfico: O trabalho do geógrafo no Terceiro Mundo (1971), em que defende uma metodologia que rompesse com a ideia de que essa urbanização deveria seguir as nações industrializadas, e Por uma geografia nova (1978), em que tece uma revisão crítica da evolução da disciplina, apontando os impedimentos à construção de uma ciência voltada à “problemática social mais ampla e construtiva”.

Miltonianos

Já nos anos 1980, Milton Santos consolida sua crítica ao capitalismo e às teorias dominantes na geografia, publicando obras como Pensando o espaço do homem e Ensaios sobre a urbanização latino-americana, ambos de 1982, e O espaço do cidadão, de 1987. Esse período foi essencial para amadurecer ideias que resultaram em obras comoA natureza do espaço e Por uma outra globalização e formou o contexto no qual Cataia, Bernardes e Castillo, egressos do Laboplan, concluíram sua formação, participando ativamente das pesquisas que resultaram nas últimas publicações de Milton Santos.

Quando vieram para a Unicamp, no início dos anos 2000, os três docentes ajudaram a estabelecer o curso de geografia, que estava em seus estágios iniciais. Junto com a professora Maria Adélia de Souza, eles criaram o Laboratório de Investigações Geográficas e Planejamento Territorial (Geoplan), que hoje, ao lado do professor Vicente Lemos, mantém pesquisas sobre os novos usos do território brasileiro, trazendo os temas e metodologias miltonianos para a atualidade.

Ainda assim, os pesquisadores reconhecem que a continuidade dessa tradição não atenua a ausência de Santos. Para eles, o geógrafo foi um grande pensador, com uma incrível capacidade de interpretar o mundo e um desejo inigualável de compartilhar esse conhecimento. Talvez por isso, nas memórias daquela época, uma palavra sobressai: generosidade. “Isso é o que faz mais falta nele, acho que para todos nós. Essa gentileza intelectual, essa vontade de deixar ensinamentos. Tudo isso desapareceu de repente e é algo que eu raramente vejo em outras pessoas nos dias de hoje”, afirma Castillo.

Autoria: Paula Penedo
Edição de Imagem: Alex Calixto, Luis Paulo Silva, Paulo Cavalheri
Fotografia: Antoninho Perri

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  • A professora Adriana Bernardes: Milton Santos antecipou a preocupação com o controle da informação nas mãos de poucas empresas e atores
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  • O professor Márcio Cataia: “A sociedade promove modificações, alterações e transformações no território, e isso provoca uma metamorfose que não volta mais e condiciona as ações sociais”
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  • Para o professor Ricardo Castillo, a generosidade de Milton Santos é uma qualidade difícil de ser encontrada em outras pessoas
    Para o professor Ricardo Castillo, a generosidade de Milton Santos é uma qualidade difícil de ser encontrada em outras pessoas

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