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Jornal da Unicamp - Educação contra a catástrofe

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Jogos

Publicado originalmente no Jornal da Unicamp

Emergência climática exige adequação pedagógica no ensino básico brasileiro; tese do IG propõe caminhos

Diante da emergência climática global, a formação de cidadãos conscientes e ativos torna-se fundamental. No Brasil, a educação básica é o ponto de partida para isso, pois é o alicerce para o desenvolvimento humano, social e econômico do país. Mas como, então, promover a Educação em Mudanças Climáticas (EMC) no contexto do ensino básico brasileiro? Esse foi o ponto de partida da tese defendida por Daniela Resende de Faria no programa de pós-graduação em Ensino e História de Ciências da Terra do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp.

A pesquisadora procurou compreender, dentro do contexto brasileiro, o estado da arte da EMC, campo que busca ensinar, refletir e agir sobre as causas, consequências e soluções relacionadas à crise climática, formando cidadãos capazes de compreender o problema e de participar ativamente em sua mitigação e adaptação. Para isso, Faria dedicou-se à análise de propostas de promoção da EMC presentes em documentos oficiais que orientam a educação básica, à elaboração de propostas didáticas e à realização de entrevistas com 65 professores ativos no ensino básico de várias partes do Brasil.

Os resultados obtidos pela investigação indicaram a presença de três pilares fundamentais: educação crítica centrada no estudante; abordagens interdisciplinares; e o contexto real dos estudantes. A pesquisadora identificou que a falta de recursos e de diretrizes claras para promover a EMC é um importante entrave ao ensino do tema. “Nós percebemos que as dificuldades vão desde uma falta de orientação nos materiais e documentos normativos até a falta de recursos didáticos e pedagógicos”, comenta Faria.

A investigação demonstrou que, para que a EMC deixe de ser um tema pontual tratado apenas em algumas disciplinas ou datas específicas, é necessária uma reestruturação pedagógica profunda. Apesar da crescente presença do tema na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e em outros documentos orientadores, a pesquisa revelou um abismo entre o que é preconizado e o que é, de fato, praticado em sala de aula.

Daniela trabalhou com turmas do 6º ano até a 3ª série do Ensino Médio, além de atuar como formadora de professores da educação básica. Ela conhece exatamente a realidade das salas de aula e sabe que muitos educadores se sentem despreparados ou sobrecarregados para abordar um tema tão complexo, interdisciplinar e, muitas vezes, politicamente sensível. “Eu sempre encontrei essa dificuldade de promover o ensino de mudanças climáticas. Esse é um conteúdo muito complexo, que deve ser tratado de modo interdisciplinar”, explica.

A saída encontrada pela pesquisadora foi a utilização de jogos relacionados ao tema, elaborados por ela mesma e bem recebidos por seus alunos. “Eu percebi que esses jogos funcionavam muito bem para as minhas aulas. Então, comecei a pensar se não funcionaria também para outros colegas”, afirma. Durante a elaboração da tese, percebeu-se que o jogo era um recurso que teria sucesso se associado às questões do contexto, da interdisciplinaridade e da metodologia centrada no estudante. Sozinho, o material seria apenas mais um jogo.

“Tem que haver todo um trabalho em sala de aula; tem que ter infraestrutura na escola e uma gama de ações realizadas em conjunto para que o jogo consiga dar todas as respostas que ele pode”, explica a orientadora da tese e pesquisadora do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), Priscila Coltri. Ela conta que o Centro há muitos anos recebe a visita de escolas e vem sendo notável a existência de dúvidas sobre como abordar assuntos relacionados às mudanças climáticas em salas de aula.

“Quando a Daniela fez essas entrevistas com os professores, um dos pontos identificados foi a dificuldade de encontrar ou de entender ações que pudessem ser feitas dentro da sala de aula”, explica Coltri. Foi assim que surgiu a ideia de usar um perfil na rede social Instagram — @entrando_no_clima — para fazer a divulgação científica do tema e contribuir com professores que buscavam um material acessível e bem referenciado. Daniela passou então a disponibilizar no perfil jogos, sequências pedagógicas e artigos científicos, entre outros tipos de materiais que facilitam a dinâmica das aulas e podem ser facilmente adaptados ao contexto dos alunos. O recurso também pode ser utilizado por qualquer pessoa interessada no assunto.

A pesquisadora lembra que são as crianças e adolescentes hoje na educação básica que tomarão decisões no futuro e precisarão contar com um embasamento. Nesse sentido, afirma: “É muito importante que o educador seja capaz de promover um ensino de mudanças climáticas que leve o estudante a essa reflexão crítica à luz do seu contexto, do seu território, da sua comunidade. Que o torne capaz de olhar criticamente e entender aquele conceito, de refletir sobre aquilo, de dialogar com as pessoas para daí sim tomar decisões mais fundamentadas, não apenas paliativas.”

Autoria: Eliane Fonseca Daré 
Edição de Imagem: Alex Calixto, Luis Paulo Silva e Paulo Cavalheri
Fotografia: Antoninho Perri, Lúcio Camargo e Reprodução

Galeria de imagens

  • A pesquisadora Daniela Faria: estudo identificou a falta de materiais didáticos e orientações sobre o tema
    A pesquisadora Daniela Faria: estudo identificou a falta de materiais didáticos e orientações sobre o tema
  • Priscila Coltri, orientadora da tese: “Tem que haver todo um trabalho em sala de aula para que o jogo consiga dar todas as respostas”
    Priscila Coltri, orientadora da tese: “Tem que haver todo um trabalho em sala de aula para que o jogo consiga dar todas as respostas”

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